barredo

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Ano 2009. “Lugar de mártires, de heróis, de santos.” Pai Américo sobre o Barredo mais conhecido por Ribeira. 

“A demolição do Barredo há-de ser o milagre do século!

Chegados que fomos ao alto de Gaia, eu disse ao volante que metesse pela ponte de baixo. Trazíamos umas horas de viagem silenciosas. O meu companheiro não abriu a boca desde o inicio. Óptimo. Nada que mais encha a vida do homem do que ver e sentir o Criador da Sua Criação. As viagens dão-nos essa oportunidade. Não é um panteísmo; é S. Paulo: “Per visibilia ad invisibilia”. Gosto de um companheiro assim.

Chegados à boca do túnel da Ribeira, mandei parar e pergunto-lhe se se não importa de vir comigo; tendo recomendado ao rapaz que nos esperasse à saída, depois de ouvir o sim. Passava algo das três da tarde. Sol intermitente. Às “alminhas” da Ponte, em lugar de seguirmos beira-rio, metemos à direita, descemos dois patamares de caleiras de granito e eis-nos em plano Barredo.

A imundície era por muitos sítios, de muitas castas e cores. Montes de lixo embragam o passo. Crianças aleijadas, pedintes. Cães, galinhas, gatos – o Barredo na sua maior expressão. O meu companheiro enquanto caminha e à vista de casas altas, vai-me perguntando se ali mora gente.

Estávamos justamente à beira da porta de uma aonde costumo entrar e pergunto-lhe se gostaria de subir. “Com muito prazer”, disse. Eu à frente e ele depois, começamos a subida. Aqui também há Everests… de miséria! Como quem não conhece o terreno, vou afastando trapos aqui e além, que são a porta de pequenos antros. Há candeeiros de petróleo. Pergunto quem e quantos ali moram. Pergunto das rendas. Pergunto tudo de tudo, farto de saber estou, mas eu desejava que o meu companheiro escutasse. Nos patamares há enxergas e sobre estas há Entravados. A uma pergunto e ela disse que há seis anos vive ali. O meu companheiro nota uma fenda na parede sem resguardo algum e sente o tempo que por ali passa. A Padecente também nota a sua dor e explica: “Já lá vão seis invernos; ainda ontem me molhei toda. Se não fosse Deus já tinha morrido”.

Ele toma um livro de apontamentos. Escreve ali ao pé de mim. Volta aos antros e à luz dos candeeiros, torna a escrever. Pára, como quem se pergunta a si mesmo: “Que andámos nós a fazer?”. Eu não compreendi, mas ele num instante completa o sentido: “Que andamos nós a fazer? Que obras fazemos nós?”. Aquele homem que soube guardar um magnifico silencio até ali, agora irrompe, totalmente dominado pela forte comoção: – “Mas é preciso que isto se saiba. Que se veja. Que o incrível se torne conhecido. De que servem as pontes e os canais e os monumentos e as grandes obras, quando esta é a maior de todas?”. Eu estava deleitado com a eloquência. Ia medindo as circunstâncias absolutamente casuais do nosso encontro e da maneira como o orador chegou até ali; e pela doença que Deus me tem dado de O ver em toda a parte, eu vi ali Deus.

Ele continua: “É preciso”. Parece que se repetia, mas não. Afirmava. Afirmação que era grito, assim como quem chama por homens para acudir a um perigo. “É preciso que venham aqui os Ministros. Incógnitos ou anunciados, isso não importa, mas que venham ver. As outras obras podem esperar, mas esta não.”

Descemos. Continuamos pelo coração adiante, mete-mos pelos braços e outras artérias do Barredo. Aonde o coração, aí a força. A miséria é uma energia! Ele soube ver, medir e sentir. Também deve ter compreendido que aquela hora foi de Deus. A demolição do Barredo há-de ser o milagre do século!

À saída do túnel estava o “Morris” e dali fomos ver o Bairro D. António Barroso, a Miragaia. À porta da alfandega parámos. Ele olha. Em frente era um aglomerado de casas, muitas casas, de muitas cores, dispostas em cascata. Ele torna a dizer: – “Esta é a nossa obra; as outras podem esperar”. Levanto o braço e ponho o indicador no sentido do Palácio de Cristal: – aquilo também? Ao que ele respondeu num repelão: – “Cale-se!”. E eu calei-me.

Estamos agora no coração do Bairro. Ele vê e, como é mestre, nada pergunta. Documenta-se com fotografias. Quer levar consigo que dizer e que mostrar. Eu aponto a quinta fronteiriça, cheia de barracas e o mais que lhes diz respeito. “podemos lá ir?”, pergunta. Pois não… respondi. Fomos. Outro Barredo!

Eu disse ao meu companheiro que com a maquina que construímos o Bairro hoje à vista, poderíamos desde já a construir 200 casas semelhantes, sem incomodar ninguém. Tal como andam centenas delas a subir neste momento por Portugal fora, subiriam também aquelas, tal a força da Miséria!”

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Nota: excerto de “O Barredo”, Primeiro Volume, Segunda Edição, impresso em 1974.

//jb.18Maio2015